31 de dezembro de 2014

FÈS

Marrocos: o país das cores

Fès - a cidade amarela

Saímos de Chefchaouen de manhã cedo, logo a seguir ao pequeno-almoço na Praça al-Hamman. A viagem foi feita pelo meio do planalto do Rif vendo o desenrolar do quotidiano dos locais.

A caminho

A caminho
 A meio da tarde, após mais uma curva, avistámos do cimo de um monte a cidade de Fès, a velha (Fès el-Bali) e a nova (Fès el-Jdid). Desde logo percebemos que a cidade era enorme e à medida que descíamos e nos aproximávamos, percebemos que nos dirigíamos para a cidade velha, pelas enormes e bem preservadas muralhas que a rodeavam. Com o dourado do sol a incidir-lhes, assenta-lhe muitíssimo bem o epíteto de cidade amarela.
A primeira preocupação foi a de arranjar estacionamento e com isto chegou a nossa primeira peripécia em Fès. Circundámos a cidade até que encontrámos o que nos pareceu o principal parque estacionamento da cidade, mas hesitámos e decidimos seguir de carro. Mal demos por nós e já estávamos a cruzar um grande pórtico da muralha e a embrenhar-nos nas confusas ruas marroquinas. Percebemos que alguns locais nos faziam sinais com as mãos, mas não entendemos o que nos queriam dizer até que fomos mandar parar por um guarda de trânsito. Entre o nosso francês rudimentar e o do guarda, lá nos livrámos de uma multa de 150 dirhams e voltámos para trás. Resolvemos estacionar no parque que vimos quando chegámos. Mal chegámos, fomos abordados por um arrumador de carros que nos arranjou um lugar livre. Tirei umas moedas que o Tiago lhe entregou para pagar o parqueamento até ao dia seguinte. Entretanto comecei a preparar as minhas coisas para meter a mochila nas costas e deixar o carro sem nada visível, porque já não iríamos regressar ao carro entretanto. O arrumador começou a perguntar ao Tiago onde íamos ficar hospedados e a típica abordagem marroquina para conseguir mais algum dinheiro. Eu pousei os nossos telemóveis no capot do carro, mecanicamente, e prossegui com as arrumações até que o Tiago me pergunta em que hotel íamos pernoitar. Sabia o nome de cor, mas desconhecia a morada. Procurei pelos telemóveis para conseguir esses dados. Foi aí que percebi que não os encontrava em lado nenhum. Entretanto percebi pela conversa que o guia nos ia indicar o caminho para o hotel porque, segundo ele, as ruas da medina são labirínticas e nós, turistas, não nos iríamos orientar no meio delas. Demos-lhe indicação para nos dar um pouco de tempo porque precisávamos de tempo para encontrar os nossos telemóveis e ele afastou-se um pouco. Depois de muito vasculhar, lá encontrei os telemóveis no tejadilho. E, entretanto, o guia regressou para perto de nós e começou a falar com o Tiago. Ele disse que o colega dele lhe disse que o nosso hotel era do outro lado da cidade e devolveu-nos o dinheiro do parqueamento, pois não se justificava deixar o carro naquele parque. E combinou com o Tiago ir indicar-nos o caminho. Quando me aproximei apercebi-me que ele ia connosco... no nosso carro. Fiquei fula!!! O Tiago (muito mais cauteloso do que eu, no que toca a viagens) tinha vindo o caminho todo a dizer que havia uma regra que não ia quebrar em Marrocos: dar boleias ou deixar que estranhos entrassem no nosso carro. Pois qual não é o meu espanto quando percebo que tinha decidido dar boleia e nem sequer tinha ajustado um preço. Para quem me conhece, percebe que eu fiquei logo a ferver!!! Recusei-me a sair do parque de estacionamento sem saber qual o preço a pagar por este "serviço". Primeiro o guia dizia que não havia preço, que era o que quiséssemos, que o que pagássemos estava bem para ele. O Tiago só dizia: "Estás a ver, não há problema, nós pagamos o que quisermos... blá blá blá...". Mas eu manti-me firme e decidi que não saía dali até saber o preço. Farta do discurso do guia, sugeri um preço, ao que o arrumador me responde que era pouco, porque nem sequer dava para justificar a sua deslocação!!! "Ah ah, afinal sempre havia um preço mínimo!" Naquele momento, comecei a desbaratinar com o Tiago, um crente que acredita em qualquer pessoa, achando que toda a gente faz as coisas generosamente.
Só depois de negociado o preço, entrámos no carro e fomos seguindo as indicações do arrumador que se sentou no banco de trás a dar indicações e a falar ao telemóvel.
Levou-nos por um caminho que circundava as muralhas da medina, pelo lado de fora, claro, até um parque de estacionamento, próximo dos famosos tanques de curtumes. Confesso que durante o percurso, me passou pela cabeça que ele nos estava a levar para um local qualquer fora da cidade para nos assaltar, porque ele fez um telefonema em árabe que não percebemos. O parque de estacionamento onde nos levou, era um local suspeito, porque a área está em obras de conservação. Duvidei que o Tiago quisesse deixar ali o carro, mas para meu espanto não disse nada. Nem queria acreditar no que estava a assistir. O "guia" lá negociou o preço a pagar pelo estacionamento com o arrumador daquele parque. Pegámos nas nossas coisas e lá o seguimos pelo emaranhado das ruas da medina até ao nosso hotel. Pelo caminho percebemos que ele sabia tão bem onde era o nosso hotel, como nós. Parou umas duas ou três vezes para pedir indicações do local onde este ficava. Pelo caminho fui refilando com o Tiago pela imprudência que tínhamos acabado de cometer, mas passada cerca de uma hora, foi a minha vez de cometer o mesmo erro.
Finalmente chegámos ao hotel, despedimo-nos do nosso "guia forçado" e fizemos o check in. Depois de deixarmos as mochilas decidimos que ainda tínhamos tempo para fazer um pequeno reconhecimento à medina. Pedimos informações na recepção e decidimos contratar um guia, amigo do hotel, para fazer o percurso connosco no dia seguinte, logo pela manhã.
Saímos e fomos desbravar a medina. Muitas das bancas já estavam fechadas, mas outras tantas estavam abertas e continuavam em plena actividade. Curioso perceber que a vida da medina não se orienta pela luz do sol, pois mesmo depois de ele se pôr no horizonte, o fervilhar continua em muitas das suas zonas.
A medina está dividida por zonas: a da cerâmica, dos tecidos, dos curtumes, dos metais, das especiarias... Sem qualquer mapa, nem orientação deixámo-nos andar perdidos pelas ruas e fomos tomando decisões do momento. Ir por esta ruas, em vez daquela, embrenhámo-nos naquele beco, para depois perceber que afinal já ali tínhamos passado anteriormente. Pelo caminho encontrámos um senhor que meteu conversa connosco e que não nos largou. Era guia, autorizado. Segundo ele, o mais antigo guia encartado em todo o Fès el-Bali. Foi simpático e cativou-nos por nos dar algumas informações históricas e por nos ter inspirado confiança. Levou-nos a um terraço das tanneries, para as fotografarmos à luz do final do dia. 

Os famosos tanques dos curtumes em Fès
Pelo caminho caí no erro de lhe pedir uma sugestão para irmos jantar. Simpático, levou-nos pelas ruas labirínticas ruas até um restaurante "pouco turístico", tradicional. Indicou-nos o local pelo qual devíamos regressar ao nosso hotel (um túnel, pelo qual devíamos ir curvados porque devia ter cerca de 1,20m de altura. Inicialmente ficámos convencidos, mas quando nos sentámos no restaurante percebemos que tínhamos sido, uma vez mais, enganados. O restaurante era caro, para os padrões marroquinos, e não era assim tão pouco turístico como afinal ele nos disse. Havia mais turistas que tinham caído na esparrela. Fizemos o pedido das nossas refeições e o tal guia, que estava sempre a dizer que ia embora, não desgrudava. Cantou, chorou, contou-nos a história da vida dele, começou a comer da nossa comida, quando chegou, tentou convencer-nos a cancelarmos o nosso guia para o dia seguinte e para o contratarmos e até esperou pela sua comissão (uma refeição), mesmo à nossa frente. Mais uma vez, não queria acreditar no que estava a acontecer. Incrível, a lata do senhor. Já só me apetecia expulsá-lo dali para fora. Quando ele percebeu que não o iríamos contratar para ir connosco no dia seguinte, pegou nas suas coisas e foi embora, não sem antes nos dizer que no dia seguinte ia verificar se o guia que já tínhamos contratado nos ia buscar ao hotel. Porque se ele não aparecesse, ele gostava de nos fazer a visita guiada!!! Felizmente que o nosso guia apareceu como combinado, porque só de imaginar que tinha de gramar com aquela criatura mais meio dia, ficava com comichão!!! Isabel, fizeste muito bem em pedir dicas a um guia batido e com 40 anos de experiência!!! 

Entradas marroquinas
No dia seguinte, o guia que o hotel tinha arranjado estava à nossa espera. Tomámos o pequeno-almoço e seguimos para a medina. Apresentámos-lhe a lista dos locais que queríamos visitar e ele levou-nos a esses locais e a outros que não estavam no nosso plano. Negociámos o preço antes da visita (na noite anterior fomos pesquisar na internet para não voltarmos a ser enganados) e o rapaz concordou com as nossas condições. Um jovem que não era guia oficial. No final da nossa visita, percebemos que este guia pôs por terra todas as indicações que se encontram na internet sobre fazer visitas guiadas na medina de Fès. Lemos em vários sítios que só devíamos contratar um guia oficial, para evitar sermos enganados e levados para as zonas comerciais. Mas pela nossa experiência, fomos enganados por um guia oficial e o guia não oficial, foi incrível. Pode ter sido uma excepção à regra, mas a sorte é que no final da visita gostámos tanto do nosso guia que acabámos por lhe pagar mais do que inicialmente tínhamos ajustado.



Medersa Bou Inania - colégio teológico


Relógio de água
Souq el-Attarine - mercado de especiarias


Bab Boujloud - Porta principal de Fès el-Bali - Um dos lados é decorado em azulejo azul, o outro, de verde.
Bab Boujloud
A Bab Boujloud é usada como o ponto de partida para as visitas guiadas na medina. Como os turistas devem utilizar guias autorizados pelas autoridades, o nosso guia, não sendo oficial, combinou abandonou-nos um pouco antes desta porta e combinámos encontrar-nos uns metros mais à frente, já dentro da medina. Ora, quem é que nós fomos encontrar à porta da medina?!? Exactamente, o famoso guia oficial que nos aldrabou no dia anterior. Veio cumprimentar-nos e ofereceu logo os seus serviços, uma vez que nos viu sozinhos. Quando lhe dissemos que tínhamos guia, disse, de forma educada, que nos íamos arrepender. Passado pouco tempo depois de entrarmos na medina e do reencontro com o nosso guia, este foi abordado pelas autoridades locais. Pediu-nos para aguardar e foi prestar informações a um gabinete da polícia. Explicou-nos quando regressou, que houve uma denúncia, mas que não havia problemas porque a irmã dele trabalhava no posto de turismo e portanto ele apesar de não ser guia oficial, podia fazer visitas guiadas pela medina. Não percebemos se isto é verdade, ou se ele teve de subornar as autoridades. A realidade é que ficámos muito desiludidos com a atitude do outro guia que o denunciou. No dia anterior, tinha-nos dito que também começou como guia aos 12 anos e que durante muito tempo foi guia clandestino. Que foi assim que ganhou dinheiro e experiência até conseguir estudar e ter os requisitos reunidos para ser guia oficial. Incrível como as pessoas se esquecem das suas origens e são tão intolerantes com o outro...


Souq an-Nejjarine - mercado de tapetes

Souq el-Attarine - mercado de especiarias

Medersa al-Attarine
Medersa al-Attarine


Tanques de curtumes - tanneries

Tanques de curtumes - tanneries

Tanques de curtumes - tanneries

Tanques de curtumes - tanneries
 A visita prosseguiu sem mais incidentes e continuámos a descobrir recantos da medina, vendo o dia-a-dia dos locais e as suas actividades, a maioria delas rudimentares e, em alguns casos, impressionantes e chocantes se pensarmos que estamos no século XXI.
Quando visitámos a zona dos curtumes, ofereceram-nos raminhos de hortelã para que o cheiro não fosse tão intenso. Quando cheguei ao topo da loja, às varandas onde os turistas observam a azáfama nos tanques, tentei imaginar como seria trabalhar naquelas condições no verão. Se o cheiro era assim em Dezembro, como seria no pico do Verão?!
Seguimos para uma loja de óleo de argan e outra de tecelagem (cuja matéria-prima utilizada era fio de um cacto do deserto) que pertencia à família do nosso guia (de origem berbere). Foram as únicas duas lojas a que ele nos levou e perguntou-nos anteriormente se as queríamos visitar, portanto não sentimos que nos estava a tentar impingir nada, nem nos sentimos pressionados a comprar.
Temos pena de já não nos recordarmos do nome do nosso guia, mas simpatizámos imenso com ele e esperamos que tenha um futuro promissor. Acima de tudo, pareceu-nos correcto e simpático.
Berberes em Fès

De tarde, metemos os pés a caminho do próximo destino. Demos uma pequena voltinha pelas muralhas da cidade, passámos em frente ao Palácio Real, dos seus jardins e dos enormes portões de bronze. Ficará para uma próxima, explorar com mais tempo.



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