A nossa estadia em Mrauk-U foi no
Prince hotel, um local muito muito humilde, com o básico para uma estadia de curta duração. Era composto por pequenas casinhas que se espalham por um jardim. De manhã tomámos o pequeno-almoço e acertámos os últimos pormenores com um dos rapazes da família que explorava o espaço (dos poucos que falava inglês). Quando estávamos prontos, esperámos um jeep que nos veio buscar e que nos iria levar até ao porto do rio Lemro para daí subirmos o rio até algumas aldeias da etnia Chin.
A maior parte da área montanhosa do Estado de Shin ainda está fora do alcance dos turistas/viajantes, mas é possível visitar algumas das vilas étnicas, desde que acompanhados por um guia. Para além da extraordinária beleza natural das margens do rio Lemro, estas aldeias são procuradas por ainda existirem algumas das últimas mulheres com as suas caras tatuadas.
Ainda mal nos tínhamos instalado no barco, já ele estava a fazer a primeira paragem: uma aldeia do outro lado da margem onde estava a decorrer um mercado. Fizemos uma pequena deambulação por entre as pessoas curiosas e sorridentes e os produtos que vendiam. Entre eles encontrámos um artesão de chapéus a quem comprei um, para substituir o que tinha ficado esquecido no avião em Sittwe. Desta feita, um chapéu com o padrão comum por estas bandas.
Regressámos ao barco e continuámos a subir o rio, desta vez durante algumas horas. Das margens do rio assistimos ao desenrolar do quotidiano destas populações, em plena harmonia com o rio, aproveitando todos os recursos que este tem para oferecer. Dá-lhe água, peixe, pedra... é estrada, é casa, é meio de lazer. Não se consegue conceber as suas vidas sem ele, numa simbiose permanente.
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| Simbiose entre as populações e o rio |
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| Uma das diversas técnicas de pesca que vimos |
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| Os apanhadores de pedra - a pedra é posteriormente vendida para fazer estradas. |

Na primeira aldeia em que parámos encontrámos imensas crianças a brincar na rua, apesar do calor intenso que se fazia sentir. Muitas estavam reunidas debaixo das estacas de uma casa, que viemos a saber tratar-se da escola da aldeia. Umas tábuas com pernas, onde as crianças apoiavam os cadernos, debruçadas e ajoelhadas numas esteiras que havia espalhadas pelo chão e, outras quantas tábuas ao alto que serviam de quadro. Isto era a escola. Apesar de estarmos no período de férias, estavam lá a fazer exercícios e cópias. O nosso guia disse-nos que pontualmente a professora, que também está de férias, mas que vive na aldeia, vai lá dar-lhes algumas orientações. Como já fui professora, foi com particular agrado e alguma surpresa que constatei que ainda há muitas crianças, em muitos locais no mundo, que tudo fazem para aprender, independentemente das adversidades que têm pela frente. Cruzámo-nos com poucos adultos, alguns vimo-los deitados a descansar.
Foi nesta aldeia que também vimos a primeira senhora de etnia Chin com a cara tatuada. Felizmente é uma prática que foi proibida e que caiu em desuso há cerca de duas gerações, embora se diga que em aldeias mais remotas ainda se pratique. Devido aos conflitos existentes entre as muitas étnicas que existem nesta região do Myanmar, há algumas décadas atrás era prática comum tatuar a cara das jovens da tribo Dai, entre os 7 e os 15 anos de idade, de forma a perderem a sua beleza natural e, portanto, não serem raptadas para casar pelas tribos vizinhas. Segundo uma das senhoras nos relatou (o nosso guia serviu de interlocutor), a prática era extremamente dolorosa e tatuar a cara podia levar alguns dias, o que prolongava esse sofrimento. Algumas das senhoras que encontrámos revelaram que não gostavam de ter o rosto assim e que estavam felizes por as meninas mais novas já não serem sujeitas a esta prática.
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| Escola no período de férias!!! |
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| Na escola |
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| Na escola |
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| Na escola |
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| Na escola |
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| A primeira senhora de etnia Chin com cara tatuada que vimos |
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| Almoço take-away, no barco, antes de seguirmos para a próxima aldeia Chin |
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| Almoço take-away, no barco, antes de seguirmos para a próxima aldeia Chin |
Continuámos a subir o rio até uma última aldeia onde fomos convidados a subir para uma das palhotas (casa) onde vivia uma família. Fomos rodeados por várias senhoras Chin, com a cara tatuada, que nos ofereceram chá e se sentaram juntamente connosco. Sentimos alguma pressão para comprar artigos que supostamente tinham sido fabricados artesanalmente na aldeia, numa já clara percepção de que o turista é sinónimo de dinheiro e portanto de oportunidade a agarrar para fazer negócio. De qualquer das formas não só respeitaram o facto de não querermos comprar nada, como ainda nos ofereceram bananas e a mim uma pulseira prateada que uma das senhoras tinha no pulso.
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| O uso da tanaka nas aldeias Chin não é comum, mas encontram-se algumas excepções |
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