The Golden Land
Trekking Kalaw - Inle Lake I
Para não variar muito, o dia começou bem cedo com o pequeno-almoço no último andar do hotel, ao ar livre e com vista para algumas pagodas de Kalaw. Mas antes disso, o Tiago veio à recepção saber se nos tinham conseguido arranjar um guia que fizesse connosco o trekking de 3 dias/2 noites até Inle Lake, tal como tínhamos pedido no dia anterior à noite. Chegou com a indicação de que já tinha falado com o guia e que este foi ao mercado comprar alguns mantimentos e que às 8:45 começaríamos a caminhada. Incrível a capacidade de improviso e organização deste povo. À hora combinada lá estava o nosso guia, Mr. Myo. Apresentações feitas e descrito o plano, lá começámos.
Kalaw começou por ser uma estação de montanha construída no período colonial britânico, na parte ocidental da região Shan, mas que se foi desenvolvendo ao longo dos tempos. Aqui ficaram a viver muitos descendentes dos trabalhadores e dos soldados indianos e nepaleses que trabalharam nos caminhos-de-ferro o que, juntamente com as minorias étnicas que vivem nesta região, resultam num colorido e numa riqueza cultural ímpar. Talvez por isso, mas também pela diversidade de culturas que são praticadas nas encostas das montanhas, este seja o local mais acessível e popular do país para fazer caminhadas e visitar aldeias tribais. nesta região podem encontrar-se vários grupos étnicos, nomeadamente os Pa-O, Danu, Palaung e Tsung Yo. Semanalmente há um mercado em Kalaw onde as populações das montanhas descem até à cidade para vender e trocar os seus produtos, bem como abastecer-se do que necessitam. Parece uma excelente oportunidade para assistir a todo o colorido da região, mas que nós não tivemos o privilégio de testemunhar.
Ao longo do percurso passamos pelo meio de vales, cumes florestais, plantações de cá, aldeias tribais, pagado e mosteiros, podendo assistir ao quotidiano destas populações. Algumas aldeias já têm acesso a electricidade, mas algumas outras continuam a viver extremamente ligadas à terra e às suas tradições ancestrais, continuando a usar os seus trajes e a produzir artesanalmente tudo aquilo que precisam para o seu dia-a-dia. Ao longo do percurso o guia vai explicando os costumes locais e algumas curiosidades da flora e fauna local, bem como serve de interprete entre nós e os locais, de forma a que possamos interagir um pouco mais com eles.
Plano do trekking de Kalaw a Inle Lake:
3 dias/2 noites = cerca de 60kms
Dia 1 - Kalaw - Ywar Bu (Danu) - 22 kms / 8 horas
Dia 2 - Ywar Bu (Danu) - Pat Tu Bauk (Pa-O) - 20 kms / 7 horas
Dia 3 - Pat Tu Bauk (Pa-O) - Shwe Inn Deine (Inle Lake) - 17 kms / 5 horas
Aconselha-se a quem fizer este percurso que leve consigo garrafas de água para o percurso. A quantidade necessária para um dia, pois no ponto onde se pernoita, por norma, consegue-se comprar água.
Dia 1
Kalaw - Ywar Bu (Danu village) - 22 kms / 8 horas
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| Kalaw - Início da caminhada |
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| Nalguns pontos destas encostas há algumas plantações de café, mas poucas. O grosso das plantações são mesmo as de chá. |
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| Galinhas da Floresta - Um insecto com um aspecto muitíssimo curioso |
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| Pequena paragem à sombra para repor energias e vislumbrar a paisagem |
Os tradicionais sorrisos envergonhados misturados de curisosidade e as plantações de chá nas encostas dominaram a paisagem humana e natural do primeiro dia de caminhada
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| Secagem de gengibre. Posteriormente seria transformado em pó |
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| Processo artesanal de secagem de folhas de chá |
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| Apanha das folhas de chá |
Aldeia de Twar Yaw (Palaung) - Ao final de almoço os locais reúnem-se numa sala local, em frente ao mosteiro, a tomar chá e a fumar charutos enquanto confraternizam. Até nós fomos convidados a juntar-nos a eles. Povo extremamente humilde e cheio de vontade de partilhar
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| A experimentarmos a roupa tradicional dos Palaung... |
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| Apanha das folhas de chá |
De manhã passámos nas aldeias de Ywar Thit (Palaung), passando pelas suas encostas cultivadas de chá verde, descendo posteriormente para a aldeia de Twar Yaw (Palaung), onde chegámos à hora de almoço. Os locais estavam, na sua maioria, reunidos numa sala comum, em frente ao mosteiro da aldeia, a fumar charutos e a beber chá. O nosso guia entrou e fomos convidados a juntar-nos a eles e a conviver um pouco com estes aldeões tão simpáticos. Havia um misto de vergonha e de curiosidade, mas a curiosidade e a simpatia imperou. Depois do charuto e do chá, que agradecemos, (ainda nos ofereceram mais alguns para o resto da caminhada), seguimos para uma casa Palaung onde, uma vez mais, tomámos chá e experimentamos as roupas tradicionais da tribo. Acho que a família em causa e o nosso guia estavam mais felizes do que nós, que estávamos a viver tudo aquilo. São pessoas de uma simplicidade e de uma partilha que já dificilmente se encontra. Lá partimos com imensa fome, mas segundo o nosso guia, era só mais um bocadinho até chegarmos ao View Point. O local onde iríamos almoçar e descansar nas horas de maior calor.
Ao longo do percurso o nosso guia foi colhendo algumas plantas/flores comestíveis para o nosso jantar. Esta foi uma delas.
À medida que os quilómetros iam passando, a paisagem foi mudando também. Passámos em Hin Kha Gone (Palaung) e Kan Bar Ni (Taung Yo).
Depois de atravessarmos o túnel e de atingirmos o Summit Point (a partir daí seguimos sempre a linha de caminho-de-ferro até chegar à próxima aldeia), começámos a descer as encostas e a encontrar terrenos com outras culturas, nomeadamente legumes e a cruzármo-nos com os búfalos de água que ajudam as populações a cultivar os campos.
Quando chegámos a Myin Daik Train Station (Taung Yo), encontrámos uma aldeia cheia de movimento, que fervilhava à volta da linha de caminho-de-ferro. Por sorte, chegámos à mesma hora que o comboio e foi possível perceber que a chegada do comboio é um ponto alto para as populações locais, onde se trocam/vendem produtos, carregam e descarregam mercadorias e passageiros. Tudo num colorido muito próprio.
Por volta das 19 horas chegámos ao local da pernoita, em Ywar Bu (Danu). Um banho de água fria, tomado nas traseiras da casa, com recurso a uma panela que mergulhávamos numa enorme tina de água que alguém tinha enchido, foi a melhor forma de relaxar depois de um dia tão exaustivo e extenuante. Claro que valeu cada gota de suor e que voltaria a fazer tudo de novo. Reconheço que um banho de água quente seria mais reconfortante, mas se assim tivesse sido, não teria sido uma experiência tão emocionante. Como se costuma dizer: "Em Roma, sê romano". O dia terminou com um jantar divinal preparado pelo nosso guia, no exterior da casa onde dormimos, com os já habituais 7 pratos de acompanhamento.
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| Chegada do comboio |
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| Mais uma vez chá com mel enquanto assistimos à agitação trazida pelo comboio |
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| Jantar delicioso |
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| Homestay |
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Trekking Kalaw - Inle Lake II
Assim que tomámos o pequeno-almoço, saímos de Ywar Bu e começámos a caminhada. O dia começa bem cedo para estas populações, que aproveitam as temperaturas da manhã para adiantar os trabalhos agrícolas. Visitámos a aldeia de Kain Maing (Taung Yo), a de Pin Nwe (Pa-O) e a de Paw Kaè (Pa-O).
Numa destas últimas, provámos alguns doces locais, vimos como as mulheres Pa-O teciam os seus trajes tradicionais e fizemos uma pausa. Estávamos tão entretidos a ver as habilidades da tecelagem deste povo, quando o nosso guia aparece com roupas tradicionais para nós vestirmos e ele nos fotografar. Sempre super prestável e enérgico, Mr. Myo fez todos os possíveis ao longo destes dias para nos envolver na comunidade local. Foi mais um momento de boa disposição e uma experiência engraçada para nós. O Tiago acabou por comprar um saco tradicional, para recordação.

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| A experimentar os trajes tradicionais Pa-O |
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| Família Pa-O |
Doces tradicionais numa aldeia Pa-O
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| Secagem da pimenta |
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| Secagem do arroz |
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| O nosso almoço :) |
Almoçámos numa casa tradicional onde o nosso guia nos fez o almoço e deu um tempinho para descansar, em Kone Hla (Danu).
Estava uma tarde de calor insuportável, mas ainda tínhamos muito caminho pela frente.
A paisagem ia mudando à medida que íamos andando e tudo era novidade para os nosso olhos. Apesar de tudo, sabe bem à alma perceber que ainda há povos que valorizam a Natureza e que a tratam com respeito. Tudo ainda num estado tão puro. A meio da tarde fizemos uma pausa nas margens de um pequeno regato onde um rapaz dava banho a uns búfalos de água. A simbiose entre eles enchia o coração. Daqui para a frente eram os campos de arroz que enchiam o horizonte. Nesta altura do ano estavam secos, mas segundo Mr. Myo, em outras alturas do ano estariam alagados e cheios de sanguessugas. Se esta caminhada fosse feita em Dezembro/Janeiro, certamente seríamos brindados com a sua presença.
Por volta das 17 horas chegámos ao local da pernoita: Pat Tu Bauk (Paho), um local onde encontrámos outros turistas que também estavam a fazer o trekking e que iriam dormir na mesma homestay que nós. O dia hoje terminou mais cedo, depois de um passeio pela aldeia, onde vimos pessoas e animais regressarem às suas casas, depois de mais um árduo dia de trabalho nos campos.
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Trekking Kalaw - Inle Lake III
Dia 3 - Pat Tu Bauk (Pa-O) - Shwe Inn Deine (Inle Lake) - 17 kms / 5 horas
Saímos de Pat Tu Bauk cedo para que ainda chegássemos a Inle Lake com tempo para fazer várias visitas que o guia já tinha previsto. Apesar de serem menos quilómetros e, portanto, menos horas de caminhada, isso não significou que fosse mais fácil. O cansaço dos dias anterior havia-se acumulado e, apesar da energia ganha a cada aldeia que cruzávamos, não foi impossível evitar umas bolhas de água no pé direito. Mr. Myo vinha precavido e com a ajuda de um penso e um bastão, lá se fizeram os últimos quilómetros do trekking. Passámos por Kyaut Su - (Pa-O) e Nan Yoke - (Pa-O). Por aqui distribuímos os últimos lápis e cadernos que tínhamos levado pelas crianças locais que se despediam de nós com sorrisos num misto de curiosidade e de envergonha e um humilde Mingalaba.
Acabámos o trekking em Inthein, onde almoçámos, nas margens do lago Inle. Ainda no caminho conseguimos ver um monte com estupas. O guia chamou-nos a atenção para este local e aconselhou-nos a regressar noutro dia para visitar este e outro local nas imediações: o famoso Shwe Inn Thein. Este templo tem um conjunto de 1054 estudas, algumas delas em avançado estado de conservação, cuja datação não é certa, mas alguns é sugerido que remontam a 300a.C-200a.c. De qualquer das formas este complexo é uma das atracções do lago e uma das imagens que estava no nosso bilhete (taxa de entrada na zona de Inle Lake - 10€/pessoa), mas que acabámos por não ter oportunidade de visitar. Ficará para uma próxima visita.
Não podíamos deixar de experimentar a tanaka
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| Final do trekking |
Ao final de almoço, estávamos prontos para seguir e descobrir o Inle Lake. É um lago de água doce que fica encravado nas montanhas do estado de Shan e que se tornou muito conhecido entre os turistas por ainda preservar a genuinidade dos povos que o habitam e que dele tiram o seu sustento - os Intha - filhos do lago. Os jardins suspensos do lago e as casas flutuantes tornam este local bastante peculiar, bem como a forma característica como os pescadores locais pescam.
O guia levou-nos até um cais onde entrámos no barco esguio que nos levou por entre canais e pequenas represas até chegarmos ao lago propriamente dito. Enquanto deambulamos por entre estes canais, parece que acabámos de cair no Apocalypse Now, só acordando para a realidade quando cruzamos com outros barcos com turistas. No entanto, a surpresa foi grande, pois apesar de ser um dos ex-libris do país, não nos pareceu, ainda, apinhado de turistas.
Assim que entrámos no lago propriamente dito, percebemos desde logo que era gigante e o movimento de barcos enorme. Os locais andavam agitados nas suas tarefas quotidianas.
Parámos num cais que dava acesso a uma fábrica de papel (fibra de flor de lótus), onde também se faziam chapéus com fibras vegetais locais e numa outra casa, ligada por um passadiço, uma fábrica de tecelagem, onde trabalhavam umas senhoras e crianças Kayan Padaung (long neck women), com os anéis dourados característicos à volta do pescoço. Pelo curto diálogo que tivemos com elas, pareciam felizes e orgulhosas por ostentarem um adorno que as torna ímpares, embora ao mesmo tempo sejam vistas como uma atracção turística. Há quem fale de exploração e de as obrigarem a vir trabalhar para o lago, perpetuando a colocação de anéis em raparigas de gerações mais novas, só para alimentar o turismo no lago.
Dali seguimos para uma fábrica de ourives que produziam artesanato de prata para os turistas. Escusado será dizer que os preços praticados aqui são muito superiores aos que se encontram noutros locais, em particular nas margens do lago. Como não podia deixar de ser, acabei por comprar uns brincos... Quando estávamos a sair, uns senhores convidaram-nos a experimentar betel. O Tiago recusou, mas eu achei por bem mascar e provar. Não correu muito bem, porque não gostei muito do sabor e tive de acabar por cuspir o que tinha na boca, o que suscitou a maior das risotas entre eles.
Deambulámos entre os jardins flutuantes, onde é praticada uma agricultura hidropónica, ancestral. A população conseguiu desenvolver uma técnica que lhe permite cultivar sobre a água (usando a lama, os caules dos nenúfares e as algas, ajudados por estacas de bambu) em particular legumes como o tomate, a beringela, as cabaças, entre outros. Os vegetais com raíz, como a cenoura, a cebola e o alho, são cultivados nas margens do lago, onde existem campos de terra.
Passados os jardins flutuantes, entrámos dentro do lago, onde a profundidade pode ir até aos 4 metros e onde podemos ver a tão característica e única técnica de pesca dos locais.
A nossa visita acabou com o nosso guia a levar-nos ao hotel. Foi fenomenal. Muito obrigada, por tudo, Mr. Myo. Jamais vamos esquecer estes três dias fantásticos e as experiências que nos proporcionou.
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| Almoço em Indein |
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| Ourivesaria tradicional de Inle Lake |
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| Thank you soon much for this amazing experience, Mr. Myo |























































































































































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