The Golden Land
On the Mandalay Road
O dia começou cedo com a curta viagem de táxi entre o hotel e o porto.
Às 4:45 o taxista estava à nossa espera à frente do hotel, tal como combinado. Foi só pegar no pequeno-almoço (pão com doce de figo, uma banana e um café com leite instantâneo) e seguir caminho. Em 15 minutos estávamos no porto. Em forma de agradecimento demos uma pequena gorjeta ao taxista. Qual não é nosso espanto quando ele nos abraça e beija no pescoço, felicíssimo da vida. Fomos tão apanhados pela surpresa que ficámos com cara de parvos, sem perceber muito bem como reagir. Incrível como um valor/gesto irrisório e simples para nós, pode trazer tanta felicidade a alguém!!!
Entrámos no barco e dirigimo-nos para a plataforma superior onde nos juntámos a outros turistas que lá se encontravam. Éramos 15 turistas, num barco repleto de locais. O barco partiu à hora prevista - 5:30 e rapidamente se afastou da margem e começou a descer o rio.
Entretanto a luz começou a raiar e assistimos ao nascer do sol, no meio do rio, com a silhueta de pagodas que se estendiam ao longo das margens.
Ao ritmo lento do barco, fomos assistindo ao quotidiano das populações locais que trabalhavam os campos nas margens férteis do rio, conduziam animais ou pescavam em pequenas barcaças com utensilagens rudimentares.
O barco tinha a particularidade de parar em diversas aldeias ribeirinhas para permitir a entrada e saída de passageiros, bem como a carga e descarga de mercadorias.
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| Nascer do sol |
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| O dia começa cedo para estas populações |
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| E o sol começa a ficar mais forte |
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| Hora do pequeno-almoço |
Numa das várias paragens comprámos chamuças, manga verde e milho às senhoras que entraram no barco para negociar connosco. A manga verde vinha com um pequeno saquinho com uma especiaria. Esperei para ver o que os locais faziam com aquilo e quando percebi que devia mergulhar as fatias da manga no pó, decidi fazer o mesmo. Acontece que o pó em causa era... picante!!! Episódio a que uma criança local assistiu e decidiu partilhar com a família, rindo da minha figura, num misto de gozo, alegria e vergonha. :)
Numa outra paragem comprei um dos nossos souvenirs: uma toalha colorida lindíssima que, supostamente, teria sido feita artesanalmente. Custou a simbólica quantia de 4.000 kyats e dois vernizes de unhas... Exactamente. Sim, no meio do nada, a senhora que me vendeu a toalha estava mais interessada na bolsa da maquilhagem e cremes que eu levava comigo do que no dinheiro!!!
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| Vendedoras das aldeias ribeirinhas |
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| Primeiro entram as vendedoras, depois começa o carregamento das mercadorias, neste caso, banana |
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| Organização e agilidade |
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| Maçaroca de milho |
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Manga verde com especiarias
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Estávamos em plena época seca, os níveis de água no rio são relativamente baixos e o barco tinha acabado de bater num banco de areia. O piloto tentou várias manobras, até que desistiu. Vimo-lo abandonar o barco num pequenino barco de madeira que se aproximou e deduzimos que ia buscar ajuda. Os locais, estenderam confortavelmente a sua esteira, jantaram e deitaram-se. Sim, porque entretanto, tinha escurecido. Ninguém veio ter connosco e esclarecer o que se estava a passar. O piloto regressa, liga os motores e recebemos ordens para que todos os passageiros fossem para a proa do navio. As tentativas de tirar dali o barco fracassaram e passados alguns minutos o barulho dos motores foi silenciado. Ninguém nos disse, mas percebemos que já não sairíamos dali tão cedo.
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| Ora vamos lá todos para a proa fazer peso e ver se o barco desencalha |
Confesso que durante umas horas fiquei louca. A temperatura rondava os 40ºC, tínhamos reservado um hotel espectacular com piscina em Bagan (o grande motivo da nossa viagem), não tínhamos água potável e a dada altura percebemos que as bebidas que eram vendidas no "bar" tinham esgotado e que estavam a tentar vender água amarela, porque já não tinham água selada. Pior, não sabíamos quanto tempo ia durar a espera... (já tínhamos percebido que a noção de tempo aqui é muito diferente da do mundo ocidental). Como se a ausência de informação, calor e sede não bastassem, eis que começam a aparecer os mosquitos, ou não estivéssemos nós no meio do rio. Houve quem dormisse sentado debaixo de uma rede mosquiteira do IKEA, como não tínhamos vindo tão prevenidos, tivemos de usar calças e camisa de mangas. Não era o que apetecia com aquele calor, mas... antes isso que as picadas dos mosquitos. Mesmo assim, de manhã eram várias as mordidelas. Passei a noite a saltitar entre uma cadeira e o chão da plataforma, onde sentimos um bicho a correr (o Tiago achou que era um rato... eu preferi nem imaginar). Estávamos na semana do ano novo birmanês, em cujas celebrações as pessoas lançam água umas às outras para lavar as coisas más e propiciar o aparecimento das boas. Segundo nos explicaram, nesta época os monges budistas lêem escrituras budistas ininterruptamente durante alguns dias. Ora, nem mais. Com tanto sítio para o barco encalhar, encalou precisamente em frente a uma aldeia onde uns monges recitavam orações com o uso de um amplificador!!! Eu estava fula. Fiquei irritada, chateada, refilei até que o Tiago com muita calma se virou para mim e muito calmamente diz: "Sim, estamos no meio do rio, no meio de nenhures, sem saber quando vamos sair daqui. Sim, não temos mais água potável. Que queres que faça?
Calou-me como só ele sabe fazer. Percebi que não me adiantava de nada fazer um drama. havia de haver uma solução. Umas horas mais tarde descobri, na minha mochila, uma garrafa que tinha um pouquinho de água. Era muito pouca, mas foi o suficiente para me levantar um pouco o ânimo.
Entretanto amanheceu. Por volta das 6:00 da manhã apareceu um barco que nos desencalhou e finalmente seguimos caminho para Bagan, onde chegámos às 9:30. Uma viagem que deveria ter demorado 12 horas, demorou 27. Coisa pouca, portanto.
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| Amanhecer nas imediações de Bagan |
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