The Golden Land
Sittwe I
A chegada ao aeroporto de Sittwe foi anedótica. Ainda mal tínhamos entrado nas instalações, já estávamos completamente rodeados de homens que nos queriam transportar para o centro da cidade. A abordagem foi agressiva e sentimo-nos bastante incomodados com a atitude deles. Mais tarde iríamos perceber que isso era algo comum nesta região. Depois de finalmente conseguirmos preencher a documentação que as autoridades pediam, lá saímos do edifício, sempre rodeados dos persistentes e teimosos condutores. Fiquei tão chateada pela abordagem, que mesmo não sabendo a que distância estava do centro, estava decidida a ir a pé. À medida que fomos caminhando, foram desistindo aos poucos. Ficou apenas um ao nosso lado que conduzia o seu riquexó e depois de algumas negociações (e porque eu não via o fim à vista da estrada), lá aceitámos que nos levasse até ao centro da cidade. Só a meio me lembrei que tinha deixado o meu chapéu (que tinha comprado em Inle Lake) no avião. Como a minha mochila ficou numa lateral e a hospedeira o colocou no compartimento do lado oposto, nunca mais me lembrei... A primeira impressão da cidade não foi a melhor. É suja, é caótica e absurdamente barulhenta. O calor, o cansaço e a abordagem que sofremos no aeroporto também não ajudou. Para agravar a situação não tínhamos nenhuma reserva de hotel feita. Agora percebíamos porque é que nas nossas pesquisas não encontrávamos muitas alternativas de alojamento na cidade.
Decidimos percorrer a rua principal, de mochilas às costas, à procura de hotel. Encontrámos dois, com boas instalações, mas estupidamente caros. Continuámos as nossas buscas e encontrámos uns quantos mais acessíveis e que iam ao encontro ao nosso orçamento. Depois de uma visita a um alojamento que me deixou completamente nauseada e incrédula (preferia dormir no banco do jardim, debaixo das árvores cheias de morcegos, a dormir ali), decidimos voltar para um dos hotéis que já tínhamos visitado anteriormente. Pousámos as coisas e fomos novamente para a rua, desta vez tentar encontrar um local para comprar o bilhete para a viagem de Sittwe para Mrauk U.
Nesta região e, em particular, nesta cidade, a mistura de etnias e religiões é mais pronunciada que em qualquer outras região do Myanmar - Rakhaing, muçulmanos, indianos, hindus, birmaneses. Um das minorias da região são os rohingya, uma minoria que não é reconhecida pelo governo birmanês. Esta é uma situação controversa e o nosso guia em Mrauk U relatou-nos alguns episódios que tinham ocorrido no ano anterior contra este grupo. Estima-se a existência de cerca de 750.000 a 1.5 milhões de muçulmanos (não estamos a falar dos muçulmanos Rahkaing) que falam o dialecto bengali e que são sujeitos a perseguições, a trabalhos forçados, a impostos únicos e arbitrários, a recolocações forçadas, a violações e assassinatos. Por exemplo, quando um membro desta comunidade pretende deslocar-se à aldeia mais próxima, deve pedir permissão junto das autoridades. Não podem possuir terras ou propriedades, precisam de autorização para casar e não podem ter mais de dois filhos. Esta é uma questão muito delicada e que as Nações Unidas consideram preocupante, pois tem sido negligenciada. O facto de estes muçulmanos serem perseguidos pela população budista, a simpatia por parte de organizações radicais islâmicas da Ásia Central pode vir a trazer ainda maiores problemas.
Passámos numa rua onde só se viam lojas que vendiam ouro, para de repente passarmos para outra secção onde só se viam lojas que mais não eram do que armazéns onde as pessoas guardavam enormes sacos de arroz de várias qualidades. Tínhamos chegado ao Mercado do Arroz. Foi precisamente nesta rua que um senhor nos ajudou e encaminho para uma dessas lojas. Foi aí que conseguimos um horário com os nomes dos barcos e datas/horas da saída dos mesmos para Mrauk U. Sem ajuda, jamais teríamos conseguido lá chegar. Como já tínhamos a questão da viagem resolvida, relaxámos e continuámos o nosso passeio até ao Mercado do Peixe e pelo Mercado Central. Pelo caminho passámos na farmácia para comprar gotas para os olhos. Com tanta sujidade e pó, não há quem resista.
A comida de rua nunca nos fez espécie e sempre experimentámos tudo aquilo que nos apeteceu, mas nesta cidade a primeira impressão deixa muito a desejar, pelo que ficámos um pouco reticentes. Fomos procurar uma das referências do guia - o café Moe Plearl - para um lanche. Depois de andarmos às voltas, lá nos apercebemos que este local mais não era uma barraca ao lado da estrada, com os já habituais bancos pequeninos de plástico. Nem queríamos acreditar, mas entre o café, o chá e os bolos, salvaram-se os bolos. Acabámos por comprar um de frutas cristalizadas e amendoim para levarmos para o hotel e para a viagem do dia seguinte.
À noite, na falta de melhores opções, jantámos numa barraca de rua, eu uns noodles vegetarianos, o Tiago uns noodles de galinha.
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| Aeroporto de Sittwe |
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| New Clock Tower |
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| Old Clock Tower |
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| Margem do rio, junto ao mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
The Golden Land
Sittwe II
Às 5:30 apanhámos um trishaw - uma bicicleta com dois assentos laterais onde os passageiros se sentam - em direcção ao porto de Mrauk U. Comprámos os bilhetes para Sittwe e algumas provisões para a viagem. Pagámos 7.000kyats (5.000+2000)/pessoa (preço para estrangeiro), supostamente já com direito a cadeira na plataforma. Qual não é o meu espanto quando a meio da viagem vem um senhor pedir os bilhetes comprovativos em como tínhamos pago as cadeiras onde estávamos sentados. Fomos enganados. No bilhete realmente constava apenas o valor de 5.000 kyats e não tínhamos nenhum comprovativo em como já tínhamos pago. Ninguém nos entendia, apenas um monge, que viajava à nossa frente. Independentemente de ele nos ter tentado ajudar, tivemos de voltar a pagar o valor porque não nos entendiam, ou então não quiseram entender. Fiquei piúrça, não pelo valor em si, mas por me sentir enganada e ninguém ouvir o que tínhamos para dizer. Até os militares que jogavam às cartas, pararam para se juntar à festa, apontar para as cadeiras e dizer: "Pay"!!! Aventuras.
A viagem entre Mrauk U e Sittwe durou 7 horas e assim que chegámos ao cais, apanhámos um tuk tuk com o monge que fez a viagem à nossa frente e com os militares que entretanto se tinham ido fardar e se faziam acompanhar por espingardas.
Assim que chegámos ao hotel pousámos as mochilas e fomos à procura de local para almoçar. Cansados, aborrecidos pela constante abordagem dos locais que nos rodeavam como moscas, com fome e no meio de uma cidade caótica, desordenada e suja, parecia que nada nos agradava ou inspirava confiança para sentar e comer. Acabámos por encontrar um restaurante - River Valey - que nos pareceu "menos mau" onde fizemos a primeira e única refeição quente do dia. Soube pela vida. Depois disso, exaustos como estávamos, fomos para o hotel e adormecemos. Eram 18h e só acordámos na manhã seguinte.
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| Saída do porto de Mrauk U |
Centro de Sittwe - árvores pejadas de morcegos
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Centro de Sittwe - árvores pejadas de morcegos
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The Golden Land
Sittwe III
A manhã foi dedicada a explorar um pouco mais a cidade.
Regressámos aos locais onde já tínhamos passado no primeiro dia, mas desta vez para apreciar com mais calma. Cruzámos o Mercado de Arroz e o Mercado do Peixe. Confesso que fiquei um bocado nauseada pela confusão, pelo caos, pelo cheiro, pelo que consegui convencer o Tiago a regressar mais cedo ao hotel. Aliás, nesta cidade passámos mais tempo no hotel do que nas ruas. Talvez fosse o acusar do cansaço. Talvez. Talvez fosse do choque. Ficámos a ver uns episódios de uma série na TV local e quando eram horas, saímos e apanhámos um trishaw para o aeroporto. Nem imaginávamos o que tínhamos à espera. O nosso vôo estava marcado para a hora de almoço e só levantámos vôo para Yangon à noite. O horário de vôo tinha sido alterado, mas não fomos avisados de nada. Aliás, estivemos sem qualquer tipo de informação até pouco tempo antes de efectivamente termos embarcado. Mas ninguém parecia preocupado. Percebemos claramente que neste país o tempo é uma coisa que se vai gerindo e que a palavra de ordem tem de ser a flexibilidade. Como não sabíamos a que horas iríamos sair dali, não podíamos regressar ao centro. Por isso, fomos para um "restaurante" que existia nas imediações do aeroporto e de onde víamos a pista. Só saímos de lá quando vimos um avião aterrar. Como era o único na pista , só podia ser aquele que nos iria levar para Yangon.
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| Mercado nas ruas de Sittwe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
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| Mercado do peixe |
Chegámos a Yangoon já de noite. Dividimos um táxi com um iraniano e fomos fazer o check in. Como o hotel ficava em plena Chinatown, fomos jantar por lá e dar um passeiozinho pelo mercado nocturno.
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